oblablaLibrary
O Manuscrito do Sétimo Andar

Portuguese story · Advanced (C1) · ~484 words

A proofreader receives an anonymous crime novel set in her very own building, and soon she turns detective to find out who wrote it.

0:00–:––

🔊 Listen · sign up for free

👆 Tap any word to see what it means

O Manuscrito do Sétimo Andar

Lívia Mendes trabalhava como revisora havia doze anos e se orgulhava de nunca deixar passar uma vírgula fora do lugar, mas nada a tinha preparado para o envelope pardo que encontrou certa manhã na caixa de correio do seu prédio, um edifício antigo da Bela Vista, em São Paulo. Não havia remetente, apenas o número do apartamento dela escrito a lápis, numa letra miúda e caprichada.

Dentro estavam os três primeiros capítulos de um romance policial. Ela começou a ler por hábito profissional e, já na segunda página, sentiu um arrepio: o crime acontecia num edifício de oito andares, com um elevador que rangia no quinto, um porteiro que cochilava depois do almoço e uma vizinha do 302 que regava as samambaias às seis da manhã. Era o prédio dela, descrito com uma precisão que beirava a indiscrição.

O que mais a inquietou, porém, foi a protagonista, uma revisora solteira que morava no 404 e desconfiava de todo mundo. Lívia morava no 404. E, sim, desconfiava de todo mundo.

Nos dias seguintes, transformou-se em detetive. Observou quem pegava a correspondência, anotou horários, puxou conversa com o porteiro, seu Valdir, que jurou não saber de nada, e chegou a comparar a letra do envelope com as assinaturas do livro de reclamações do condomínio. Nenhuma se parecia com aquela caligrafia miúda.

Na sexta-feira, chegou um segundo envelope, com mais dois capítulos e um bilhete: "Desculpe o incômodo. A senhora poderia apontar os erros? Prometo que a personagem não morre."

Foi esse "a senhora" que a pôs na pista certa, porque só uma pessoa no prédio a tratava assim, apesar de ela ter apenas trinta e oito anos. E foi então que entendeu por que o livro de reclamações não tinha ajudado: a autora era justamente a única moradora que nunca tinha reclamado de nada. Lívia subiu até o sétimo andar e tocou a campainha do 701, onde morava dona Cida, uma professora aposentada de oitenta e um anos.

— Fui eu, sim — admitiu a senhora, sem o menor constrangimento, enquanto servia o café de um bule de porcelana. — Sempre quis escrever um livro, mas morria de medo de mostrar para alguém. Aí pensei: se ela achar ruim, pelo menos não vai saber quem foi.

— E por que a senhora me colocou na história?

— Porque a senhora é a única pessoa neste prédio que repara em tudo. Toda boa história de detetive precisa de alguém assim.

Lívia não soube se devia se sentir ofendida ou lisonjeada e acabou escolhendo a segunda opção, que dava menos trabalho. Levou os capítulos para casa, encheu as margens de comentários em caneta vermelha e, a partir daquela semana, passou a subir ao sétimo andar todas as quintas-feiras, com o manuscrito debaixo do braço.

O romance ficou pronto em oito meses. Na dedicatória, dona Cida escreveu: "Para a moradora do 404, que descobriu a culpada antes do fim."

How did the level feel?

How did you like the story?

More stories at this level

Key words

The most important words in the story, with their meaning in this context:

revisora revisor
proofreader, a person who checks texts for errors · noun
remetente
sender (of a letter or package) · noun
miúda miúdo
small, tiny (of handwriting) · adjective
rangia ranger
creaked, squeaked · verb
samambaias samambaia
ferns · noun
beirava beirar
bordered on, came close to · verb
caligrafia
handwriting · noun
condomínio
condominium, the residents' association of a building · noun
constrangimento
embarrassment · noun
lisonjeada lisonjeado
flattered · adjective

Create your own story

Pick any topic and your level, and oblabla writes a brand-new story for you. Tap any word to see what it means and save it for review.

Try oblabla for free