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As notas na margem
Clara trabalhava havia nove anos no setor de restauração da biblioteca pública de Curitiba e tinha desenvolvido uma relação ambígua com os leitores. Gostava deles em teoria. Na prática, eram as pessoas que dobravam cantos de páginas, deixavam migalhas de biscoito entre os capítulos e sublinhavam frases a caneta, como se o livro fosse só delas.
Por isso, quando um exemplar gasto de A casa das marés — um romance dos anos cinquenta que ninguém pedia emprestado havia décadas — chegou à sua mesa com anotações a lápis em quase todas as páginas, ela já estava com a borracha na mão. Foi então que leu a primeira.
Na margem do capítulo dois, ao lado de uma descrição interminável do oceano, alguém tinha escrito, numa letra pequena e inclinada: “O autor claramente nunca viu o mar. Ou viu e não gostou.”
Clara riu sozinha, o que não acontecia com frequência no setor de restauração. Virou a página. “Esta personagem merecia um livro melhor.” Mais adiante: “Parei de ler aqui às três da manhã. Voltei às quatro. Não me orgulho disso.”
Ela passou a tarde lendo o romance e as notas ao mesmo tempo, como quem escuta a conversa da mesa ao lado. O desconhecido — ou a desconhecida, não havia como saber — tinha opiniões firmes, um humor seco e uma paciência surpreendente com um enredo que, francamente, não a merecia. No último capítulo, quando a protagonista finalmente ia embora da cidade, a nota dizia apenas: “Até que enfim.”
Clara deveria ter apagado tudo. Era o procedimento, e ela era uma pessoa de procedimentos. Em vez disso, pegou um lápis e, debaixo de “Até que enfim”, escreveu: “Concordo. Mas o capítulo do farol vale o livro inteiro.” Depois devolveu o exemplar à estante, sentindo-se ridícula e, ao mesmo tempo, estranhamente desperta.
Durante três semanas, nada. Ela consultava o sistema todos os dias, com a discrição de quem não quer admitir que está esperando alguma coisa. Na quarta semana, o livro foi emprestado. Na quinta, voltou. Clara o abriu ali mesmo, no balcão, ignorando a fila.
Embaixo da sua frase havia uma resposta: “O farol? Sério? Explique-se.” E, na contracapa, uma lista: outros cinco romances esquecidos do acervo, cada um com um comentário curto e uma pergunta para ela.
Assim começou. Ao longo do outono, os dois atravessaram juntos um romance policial de final absurdo, o diário de viagem de um navegador que provavelmente nunca tinha saído do porto e um livro de poemas que nenhum dos dois entendeu, embora ambos tenham fingido entender, por educação, durante umas vinte páginas. Nunca escreveram os próprios nomes. Clara achava que um nome estragaria alguma coisa, embora não soubesse dizer o quê.
Foi Dona Ivone, da recepção, quem desfez o mistério sem querer. Numa terça-feira chuvosa, comentou que um rapaz vinha toda semana buscar uns livros velhos que ninguém lia. “Enfermeiro, trabalha no turno da noite no hospital aqui perto. Lê no intervalo, coitado. Diz que de madrugada só aguenta livro ruim, porque livro bom não deixa dormir depois.”
Clara sentiu o rosto esquentar. Três da manhã. Quatro da manhã. Agora tudo fazia sentido.
Ela poderia ter perguntado o nome dele. Poderia ter esperado no balcão no dia certo, como uma pessoa normal. Em vez disso, escolheu o livro seguinte da lista — um romance de amor tão previsível que chegava a ser comovente — e escreveu na última página: “Sábado, quatro da tarde, no café da esquina da biblioteca. Traga o livro do farol. Ainda não terminei de defendê-lo.”
No sábado, chegou quinze minutos antes e se arrependeu umas doze vezes. Às quatro e cinco, um homem de cabelo molhado de chuva entrou com A casa das marés debaixo do braço, olhou em volta com a expressão de quem procura alguém sem conhecer o rosto e, ao vê-la com um lápis na mão, sorriu.
— Você é a pessoa do farol — disse ele.
— E você é a pessoa das três da manhã.
— Teo — ele estendeu a mão. — Já que agora não tem mais jeito.
Sentou-se, pôs o livro sobre a mesa e o abriu no capítulo vinte e dois.
— Muito bem. Pode começar a se explicar.
Ela começou. Só percebeu que já era noite quando o garçom veio avisar que iam fechar.



