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A costureira do teatro

Portuguese story · Advanced (C1) · ~714 words

In Manaus in 1896, a young seamstress races against damp, time and pride to save the gown for the opening night of the city's grand opera house.

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A costureira do teatro

Em Manaus, no fim de 1896, dizia-se que o dinheiro escorria das seringueiras como o próprio látex. Os barões da borracha mandavam lavar as camisas na Europa, encomendavam pianos de Paris e, para provar ao mundo que a floresta também tinha os seus salões, tinham erguido no alto da cidade um teatro de cúpula colorida, cujas telhas, segundo se contava, haviam atravessado o oceano.

Benedita tinha dezessete anos e nenhuma dessas coisas. Tinha, isso sim, mãos rápidas e um olho que não perdoava costura torta, herança da avó, que remendava redes de pesca numa comunidade do rio Negro. Fazia três meses que trabalhava no ateliê improvisado nos fundos do teatro, onde uma dúzia de costureiras preparava os figurinos da companhia italiana que viria inaugurar a temporada lírica.

O trabalho era exaustivo e mal pago, mas Benedita gostava dele de um modo que tinha vergonha de admitir. Gostava do peso do veludo, do brilho das lantejoulas, das palavras estrangeiras que a chefe do ateliê, uma genovesa de pouca paciência chamada dona Assunta, gritava sem parar.

Uma semana antes da estreia, abriram o baú que guardava o vestido principal da soprano: uma peça de cetim cor de marfim, bordada a fio de ouro, que viera de Milão no porão de um navio. O cheiro chegou antes da visão. A umidade amazônica, que não respeitava barões nem cantoras, tinha feito o seu trabalho: manchas esverdeadas de mofo se espalhavam pela saia como um mapa de ilhas desconhecidas.

Dona Assunta praguejou em dialeto e depois ficou estranhamente calada. Não havia tempo de encomendar outro tecido; o próximo navio da Europa só chegaria em fevereiro. As costureiras discutiam soluções impossíveis: tingir tudo de preto, encurtar a saia, esconder as manchas sob camadas de tule.

Foi então que Benedita, que nunca abria a boca no ateliê, pediu licença para tentar uma coisa.

Lembrava-se de que a avó limpava as velas dos barcos com uma mistura de limão, sal grosso e sol, muito sol, e de que, nos casos mais teimosos, usava a seiva de uma planta do quintal cujo nome em português ela nunca soube. Naquela mesma noite, atravessou a cidade até o porto, onde uma vendedora de ervas lhe arranjou, a um preço absurdo para o seu salário, um maço da tal planta.

Durante quatro dias, Benedita quase não dormiu. Trabalhou mancha por mancha, com um pano de algodão e uma paciência que ninguém lhe conhecia, estendendo a saia ao sol da manhã e recolhendo-a antes da chuva da tarde, que em Manaus chega com a pontualidade de um trem inglês. Dona Assunta passava, olhava, resmungava e não dizia nada. No quinto dia, o cetim estava de novo cor de marfim. Quem procurasse com muita atenção talvez encontrasse uma sombra perto da barra; mas ninguém, do alto da plateia, procuraria ali.

Na noite da estreia, a cidade inteira parecia ter vestido a sua melhor roupa. Carruagens subiam a ladeira, senhoras se abanavam com leques de plumas, e o calor fazia os cavalheiros suarem dentro das casacas. As costureiras, naturalmente, não tinham convite: ficariam nos bastidores, prontas para socorrer botões e bainhas.

Pouco antes de a cortina subir, dona Assunta apareceu ao lado de Benedita e lhe estendeu um papel dobrado. Era um bilhete para a galeria, o lugar mais alto e mais barato do teatro, mas um lugar de verdade, com cadeira e tudo.

— A senhora não precisa de mim aqui? — perguntou Benedita.

— Preciso — respondeu a italiana, no seu português atravessado. — Preciso que alguém veja, lá de cima, o que você fez. Eu já vi.

Da galeria, a soprano era do tamanho de uma boneca. Mas quando ela entrou em cena e a luz bateu no vestido, a saia se acendeu como um rio ao meio-dia, e Benedita, que não entendia uma palavra do que se cantava lá embaixo, entendeu perfeitamente tudo o que precisava entender.

Muitos anos depois, quando a borracha já tinha ido embora de Manaus tão depressa quanto chegara, Benedita tinha o seu próprio ateliê no centro da cidade. Na parede, em cima da máquina de costura, guardava emoldurado um bilhete de galeria amarelado pelo tempo. As clientes às vezes perguntavam que espetáculo tinha sido aquele. Ela sorria e respondia que não lembrava o nome da ópera. Lembrava só do vestido.

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escorria escorrer
flowed or dripped down slowly · verb
seringueiras seringueira
rubber trees (the Amazonian trees tapped for latex) · noun
remendava remendar
mended or patched · verb
figurinos figurino
theatrical costumes · noun
lantejoulas lantejoula
sequins · noun
mofo
mold, mildew · noun
seiva
sap of a plant · noun
resmungava resmungar
grumbled or muttered · verb
bastidores
backstage, the wings of a theater · noun
emoldurado emoldurar
framed (put in a frame) · verb (past participle)

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