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Coentro à parte
Marina, uma arquiteta de Porto Alegre, se mudou para São Paulo em janeiro. Em março, ela se inscreveu num curso de culinária às quintas-feiras, à noite. Ela decidiu aprender a cozinhar de verdade, porque cansou de comer pizza quase todo dia.
Na primeira aula, a chef Irene dividiu a turma em duplas. Marina ficou com um rapaz alto, de óculos e sorriso largo. — Prazer, eu sou o Rafael — ele disse. — Sou de Recife.
Naquela noite, a turma preparou um peixe com legumes. Tudo correu bem até o fim. Então Rafael pegou um maço de folhas verdes e cortou tudo bem fininho.
— O que é isso? — perguntou Marina. — Coentro! — ele respondeu, feliz. — Peixe sem coentro não é peixe. — Para mim, coentro tem gosto de sabão — disse Marina. — Não coloca isso no meu prato, por favor.
Rafael deu risada e jogou só um pouquinho no prato dela. — Experimenta. Você vai mudar de ideia. Marina provou, fez uma careta e bebeu um copo de água inteiro. A turma toda riu.
Nas semanas seguintes, a briga continuou. Rafael colocou coentro no arroz, no feijão e até na salada. Uma vez, Marina escondeu o coentro no armário, atrás das panelas, e ele procurou o maço por meia hora. A chef Irene olhou para os dois e balançou a cabeça. — Vocês parecem cão e gato — ela disse.
Mas, aos poucos, alguma coisa mudou. Várias vezes, depois da aula, os dois foram juntos até o metrô e conversaram sobre tudo: o mar de Recife, o frio de Porto Alegre, os pais dele, a irmã dela. Marina descobriu que Rafael é engraçado, gentil e muito paciente. Só não é paciente com quem não gosta de coentro.
Uma noite, na estação, Rafael contou um segredo. — Eu vim para São Paulo por causa de um trabalho. Mas, no fim do ano, vou voltar para Recife. O meu sonho é abrir um restaurante lá, perto da praia.
Marina sentiu um aperto no coração, mas não disse nada, e nem ela entendeu por quê. "Ele é só o chato do coentro", ela pensou no metrô, a caminho de casa.
Em junho, chegou a última aula do semestre. — Hoje temos uma prova — anunciou a chef Irene. — Cada dupla vai preparar um prato típico da região de um dos dois. O melhor prato ganha um jantar no meu restaurante.
Marina e Rafael discutiram por dez minutos. Ele sugeriu uma moqueca, com muito coentro. Ela defendeu um prato gaúcho, sem nenhuma folha verde. No fim, eles fizeram um acordo: uma moqueca de peixe, mas com o coentro numa tigela separada. — Assim, cada um decide — disse Marina.
No começo, tudo deu errado. O peixe da dupla chegou atrasado, e Rafael derrubou a garrafa de leite de coco no chão. Marina tirou o avental, correu até o mercado da esquina e voltou com outra garrafa em dez minutos, sem fôlego.
Depois disso, eles cozinharam juntos, rápido e em silêncio. Rafael cortou a cebola, o tomate e o pimentão. Marina cuidou do peixe. No fim, Rafael picou o coentro e, como prometeu, colocou tudo numa tigela pequena, ao lado da panela.
A chef Irene provou a moqueca e fechou os olhos por um momento. — Está muito boa — ela disse. — Mas falta alguma coisa.
Marina olhou para a tigela de coentro e entendeu na hora. Depois, olhou para o Rafael, pegou uma colher cheia de coentro e jogou tudo dentro da panela. Rafael abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.
A chef provou a moqueca de novo e sorriu. — Agora, sim! — ela disse. A turma aplaudiu, e a dupla ganhou o jantar.
Na sexta-feira seguinte, Marina e Rafael foram ao restaurante da chef Irene. Eles pediram o prato do dia, e o garçom trouxe um peixe com... coentro, é claro. Os dois riram tanto que as pessoas da mesa ao lado olharam para eles.
— Você colocou coentro na moqueca, com as suas próprias mãos! — disse Rafael. — Eu nunca vou esquecer aquele momento. — Nem eu — respondeu Marina. — Ainda acho que tem gosto de sabão. Mas é um sabão muito bom.
Rafael ficou sério por um momento. — E Recife? — ele perguntou. — São só três horas de avião daqui, e lá tem praia, sol e o melhor coentro do Brasil. Você vai me visitar?
Marina não respondeu com palavras. Ela se aproximou e deu um beijo nele, ali mesmo, entre a sobremesa e o café.
Em dezembro, Rafael voltou para Recife e abriu um pequeno restaurante perto da praia. No cardápio, ele colocou um prato novo: a Moqueca da Marina, com coentro à parte. E, na noite da inauguração, a primeira cliente foi a própria Marina, que pegou um avião só para isso.






