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A coleira que falava
Heloísa era engenheira e passava as noites no pequeno laboratório que tinha montado na garagem de casa, em Curitiba. Fazia dois anos que ela trabalhava num projeto secreto: uma coleira capaz de traduzir miados para o português. O primeiro a testar a invenção foi Pipoca, o gato laranja e gordo que morava com ela.
Numa noite de junho, depois de centenas de testes, Heloísa colocou a coleira no pescoço de Pipoca e ligou o aparelho. O gato olhou para ela, bocejou e miou. Do pequeno alto-falante da coleira saiu uma voz:
— Finalmente. Faz três horas que eu estou com fome.
Heloísa gritou de alegria e pulou pela garagem. Tinha funcionado! Ela imaginou que o gato teria coisas profundas para dizer sobre a vida, sobre o amor e sobre os segredos dos animais.
Mas, nos dias seguintes, Pipoca só reclamou. Reclamou do sofá novo, que era duro demais. Reclamou do cachorro do vizinho, que latia o dia inteiro. Reclamou do aspirador de pó, da chuva e, principalmente, da ração.
— Essa comida tem gosto de papelão — dizia ele todas as manhãs. — Eu gostaria de saber quem inventou isso.
Heloísa estava preocupada. Na sexta-feira, ela ia apresentar a invenção a um investidor, o senhor Matsuda, que poderia dar o dinheiro de que ela precisava para fabricar as coleiras. Na quinta à noite, ela teve uma conversa séria com o gato.
— Por favor, amanhã seja educado — pediu. — É muito importante que você diga coisas bonitas.
Pipoca não respondeu. Só fechou os olhos e voltou a dormir.
O senhor Matsuda chegou pontualmente às dez horas. Era um homem elegante, de terno cinza, e trazia uma sacola com o nome da empresa dele: Gato Feliz. Heloísa ficou pálida. Era exatamente a marca da ração que Pipoca odiava.
Ela tentou não pensar nisso e começou a demonstração. Ligou a coleira, e Pipoca foi direto cheirar a sacola do visitante.
— Esse cheiro eu conheço — disse a voz. — É a pior comida que eu já comi na vida.
Heloísa queria sumir. Começou a pedir desculpas, mas o senhor Matsuda levantou a mão.
— Não se preocupe — disse ele, muito sério. Depois, abriu a sacola, tirou um pacote diferente e colocou um pouco de ração na frente do gato. — E esta aqui? É uma receita nova. Ainda não está nas lojas.
Pipoca cheirou, provou e comeu tudo em menos de um minuto.
— Essa é boa — disse a voz. — Muito boa. Eu gostaria de mais, por favor.
O senhor Matsuda começou a rir.
— Heloísa, a minha empresa gasta milhões todos os anos para descobrir o que os gatos acham das nossas rações. E nunca ninguém conseguiu uma resposta tão clara. Espero que você aceite trabalhar com a gente.
Um ano depois, as coleiras de Heloísa estavam à venda em todo o Brasil. E Pipoca tinha um emprego novo: provador oficial da Gato Feliz. Ele continuava reclamando de tudo, mas agora recebia o salário em sachês.





