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Uma hora antes do concerto
Helena tinha dezenove anos e tocava violino desde os seis. Naquela noite, ela ia tocar como solista pela primeira vez no Teatro Municipal de São Paulo, com a orquestra inteira atrás dela. O violino tinha sido da professora dela, dona Margarida, que deu o instrumento de presente para Helena quando ela entrou na faculdade de música. Dona Margarida também ia estar na plateia naquela noite.
Às sete horas, uma hora antes do concerto, Helena ensaiou um pouco no camarim, deixou o violino em cima da mesa e foi tomar um café. Quando voltou, quinze minutos depois, a mesa estava vazia. O estojo continuava no sofá, aberto, mas o violino não estava em lugar nenhum.
As pernas de Helena começaram a tremer. Ela chamou o segurança, seu Wilson, um homem calmo que trabalhava no teatro havia vinte anos.
— Calma, menina. Ninguém sai deste teatro sem passar por mim — disse ele. — Vamos descobrir o que aconteceu.
Helena tentou pensar. A porta do camarim tinha ficado aberta, e muitas pessoas tinham passado pelo corredor: músicos, a moça da maquiagem, a equipe de limpeza. Qualquer um podia ter entrado.
Seu Wilson olhou o camarim com atenção, como um detetive de filme. Na mesa, no lugar onde ela tinha deixado o violino, havia um pouco de pó de madeira, bem fino. E no ar havia um cheiro forte de cola.
— Pó de madeira e cola — disse Helena, devagar. — Isso não é coisa de ladrão. Isso é coisa do…
— Seu Kenji! — disseram os dois ao mesmo tempo.
Seu Kenji era o luthier do teatro, o homem que consertava os instrumentos da orquestra. A oficina dele ficava no porão, no fim de uma escada estreita. Helena desceu correndo, com seu Wilson atrás. Ela abriu a porta, e lá estava o violino, em cima da mesa de trabalho. Seu Kenji estava colando uma pequena peça de madeira com muito cuidado.
— Ah, Helena! Você viu o meu bilhete? — perguntou ele, tranquilo.
Ele explicou que tinha passado pelo corredor enquanto ela ensaiava e tinha ouvido um som estranho em uma das notas. Quando voltou para falar com ela, o camarim estava vazio, então ele examinou o instrumento ali mesmo, com as ferramentas que sempre levava no bolso, e descobriu que a pecinha de madeira que segura as cordas estava quase quebrando.
— Com o calor das luzes do palco, ia quebrar no meio da música — disse ele. — Deixei um bilhete no espelho explicando tudo.
— Não tinha nenhum bilhete no espelho — respondeu Helena.
Seu Wilson olhou para baixo e começou a rir. Preso no sapato de Helena, havia um papel amarelo: "Helena, levei o violino para consertar. Volto em vinte minutos. Kenji."
Às oito em ponto, Helena entrou no palco. O violino nunca tinha soado tão bonito. Quando a música terminou, o público aplaudiu de pé, e na primeira fila dona Margarida chorava de emoção. Atrás das cortinas, seu Kenji e seu Wilson aplaudiram mais alto que todo mundo.





