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O alfaiate de sombras
Na Rua do Giz, no centro histórico de São Luís, havia uma alfaiataria tão pequena que muitos turistas passavam por ela sem notar. Durante o dia, seu Benedito fazia barras de calça, trocava zíperes e ajustava vestidos de festa.
O que pouca gente sabia era que, depois da meia-noite, ele atendia outro tipo de cliente. Eram pessoas cujas sombras tinham se rasgado na quina de um muro ou desbotado de tanto sol.
Para esses clientes, ele guardava numa gaveta trancada uma agulha de prata e um carretel de linha que, segundo ele, era fiada com luz da lua.
Numa noite de junho, quando a cidade inteira já ensaiava para as festas do bumba meu boi, alguém bateu à porta com tanta pressa que o velho quase deixou cair os óculos. Era uma moça de uns dezenove anos, de tranças compridas.
— O senhor é o Benedito das sombras? — perguntou ela, sem fôlego. — Depende de quem pergunta — respondeu ele, desconfiado. — Meu nome é Joana. E eu preciso de ajuda, porque a minha sombra fugiu.
Benedito acendeu o abajur e olhou para o chão. De fato, a luz batia em cheio na moça e, mesmo assim, não havia nada aos pés dela, como se ela fosse feita de ar. Em quarenta anos de ofício, ele tinha costurado sombras rasgadas e encolhidas, mas nunca tinha visto uma sombra fugir.
— Quando foi que você percebeu? — Hoje à noite, no ensaio do grupo de boi do meu bairro — contou Joana, envergonhada. — Eu danço há três anos, mas só nos ensaios. Na hora de me apresentar, eu travo. Hoje o mestre do grupo me chamou para o meio da roda, todo mundo ficou olhando, e eu saí correndo. Quando parei na esquina, olhei para o chão, e a minha sombra já não estava comigo.
Benedito coçou o queixo. Já tinha ouvido falar de sombras que se cansavam de ser pisadas, mas nunca de uma que se cansasse de esperar. — Se eu fosse a sua sombra — disse ele, devagar —, teria ficado onde estava a música. O seu grupo ainda está ensaiando? — Até de madrugada — respondeu Joana. — Falta só uma semana para a festa. — Então vamos.
Ele guardou a agulha e o carretel no bolso do colete, pegou um lampião antigo e trancou a porta. As ruas de pedra estavam quase vazias, mas de longe vinha o som de matracas e tambores.
Os dois seguiram o som por ladeiras e becos até uma pracinha enfeitada com lâmpadas coloridas. Era a praça do bairro de Joana, e o grupo dela continuava o ensaio. O boi, coberto de veludo bordado, dançava no centro da roda.
Foi Joana quem a viu primeiro. No muro branco do outro lado da praça, uma sombra dançava sozinha, leve e solta, com as tranças voando a cada giro. Dançava melhor do que qualquer brincante da roda.
— É ela — sussurrou Joana. — Mas eu nunca dancei assim. — Dançou, sim — corrigiu Benedito. — Só que nunca na frente de ninguém. A sua sombra viu tudo o que você ensaiou no quarto, de porta fechada.
Ele tentou se aproximar do muro com a agulha na mão, mas a sombra escorregou para o lado, rápida como um peixe, e foi parar num canto escuro. O velho tentou mais uma vez, sem sucesso, e acabou desistindo, ofegante e rindo.
— Assim não vai dar — admitiu. — Só consigo costurar uma sombra de volta quando a pessoa e ela estão no mesmo passo. Se você quiser recuperá-la, vai ter que dançar com ela.
Joana olhou para a roda, para o mestre do grupo e para os vizinhos que assistiam ao ensaio das janelas. Sentiu que as pernas tremiam. Depois olhou para o muro, onde a sombra tinha parado e parecia esperar por ela, com uma mão estendida.
Então ela respirou fundo, entrou na roda e começou a dançar. No início, os passos saíram duros, como se o corpo não se lembrasse de nada. Mas os tambores aumentaram, as matracas responderam e, aos poucos, ela parou de pensar.
No muro, a sombra começou a se aproximar, um giro de cada vez. Quando Joana girou pela última vez no centro da roda, a sombra deslizou pelo chão de pedra e se encaixou nos calcanhares dela, como um sapato que finalmente serve.
Benedito se ajoelhou no mesmo instante e, com quatro pontos rápidos de linha prateada, prendeu a sombra no lugar. Ninguém viu a agulha. Todos viram uma moça que dançava como se a música saísse do próprio corpo.
Quando o ensaio terminou, o mestre do grupo veio falar com ela. — Onde você estava escondendo isso, menina? — perguntou, rindo. — No dia da festa, é você que vai abrir a apresentação.
Joana olhou em volta para agradecer a Benedito e o viu descendo a ladeira com o lampião. Correu atrás dele e só o alcançou na esquina. — Quanto eu lhe devo? — perguntou.
— Um lugar na primeira fila, no dia da festa — respondeu ele. — E, se um dia ela tentar fugir de novo, você já sabe: em vez de vir me procurar, vá dançar.
Na noite da apresentação, Benedito fechou a alfaiataria mais cedo pela primeira vez em quarenta anos. Da primeira fila, viu Joana abrir a roda debaixo das luzes coloridas. Atrás dela, no chão de pedra, a sombra girava junto, perfeitamente costurada, e não deu um único passo fora do lugar.





