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O Manuscrito do Sétimo Andar
Lívia Mendes trabalhava como revisora havia doze anos e se orgulhava de nunca deixar passar uma vírgula fora do lugar, mas nada a tinha preparado para o envelope pardo que encontrou certa manhã na caixa de correio do seu prédio, um edifício antigo da Bela Vista, em São Paulo. Não havia remetente, apenas o número do apartamento dela escrito a lápis, numa letra miúda e caprichada.
Dentro estavam os três primeiros capítulos de um romance policial. Ela começou a ler por hábito profissional e, já na segunda página, sentiu um arrepio: o crime acontecia num edifício de oito andares, com um elevador que rangia no quinto, um porteiro que cochilava depois do almoço e uma vizinha do 302 que regava as samambaias às seis da manhã. Era o prédio dela, descrito com uma precisão que beirava a indiscrição.
O que mais a inquietou, porém, foi a protagonista, uma revisora solteira que morava no 404 e desconfiava de todo mundo. Lívia morava no 404. E, sim, desconfiava de todo mundo.
Nos dias seguintes, transformou-se em detetive. Observou quem pegava a correspondência, anotou horários, puxou conversa com o porteiro, seu Valdir, que jurou não saber de nada, e chegou a comparar a letra do envelope com as assinaturas do livro de reclamações do condomínio. Nenhuma se parecia com aquela caligrafia miúda.
Na sexta-feira, chegou um segundo envelope, com mais dois capítulos e um bilhete: "Desculpe o incômodo. A senhora poderia apontar os erros? Prometo que a personagem não morre."
Foi esse "a senhora" que a pôs na pista certa, porque só uma pessoa no prédio a tratava assim, apesar de ela ter apenas trinta e oito anos. E foi então que entendeu por que o livro de reclamações não tinha ajudado: a autora era justamente a única moradora que nunca tinha reclamado de nada. Lívia subiu até o sétimo andar e tocou a campainha do 701, onde morava dona Cida, uma professora aposentada de oitenta e um anos.
— Fui eu, sim — admitiu a senhora, sem o menor constrangimento, enquanto servia o café de um bule de porcelana. — Sempre quis escrever um livro, mas morria de medo de mostrar para alguém. Aí pensei: se ela achar ruim, pelo menos não vai saber quem foi.
— E por que a senhora me colocou na história?
— Porque a senhora é a única pessoa neste prédio que repara em tudo. Toda boa história de detetive precisa de alguém assim.
Lívia não soube se devia se sentir ofendida ou lisonjeada e acabou escolhendo a segunda opção, que dava menos trabalho. Levou os capítulos para casa, encheu as margens de comentários em caneta vermelha e, a partir daquela semana, passou a subir ao sétimo andar todas as quintas-feiras, com o manuscrito debaixo do braço.
O romance ficou pronto em oito meses. Na dedicatória, dona Cida escreveu: "Para a moradora do 404, que descobriu a culpada antes do fim."




